7. MUNDO 28.8.13

INFMIA!

O ataque com armas qumicas na Sria alcanou um patamar de perversidade que rompe as fronteiras da civilizao

De todos os horrores perpetrados pelo homem contra o seu semelhante, nada  mais abominvel, incompreensvel e inominvel do que matar crianas. A praga da perversidade, que de tempos em tempos se manifestava sob diversos ardis, desta vez desabou sobre a Sria, na forma de bombas qumicas arremessadas contra civis. Morreram asfixiadas 1,3 mil pessoas. Talvez muito mais. Entre elas, meninos e meninas. Centenas deles. O que dizer sobre os corpos enfileirados no passeio pblico, cobertos por mortalhas brancas, sem sinais aparentes de violncia? O que dizer sobre as faces enrijecidas, expostas em plena rua, a no ser que so imagens que demoram para desaparecer da memria? O ataque na Sria alcanou um patamar de maldade que rompe as fronteiras da civilizao.  a barbrie pura e simples, suscitada pelas mos ignominiosas dos monstros que lanaram as armas qumicas.

BARBRIE - Crianas vtimas do massacre: estima-se que mais de 1,3 mil pessoas morreram asfixiadas

Quem cometeu o massacre? - Denncias de um ataque qumico  o maior desde o incio da guerra civil  no subrbio de Damasco elevam a violncia a outro patamar na Sria. O presidente Bashar al-Assad  o principal suspeito
Mariana Queiroz Barboza

Nos ltimos dois anos, a guerra civil na Sria provocou a morte de 100 mil pessoas. Apenas na semana passada, 1,3 mil vtimas foram adicionadas a essa contagem macabra. Desta vez, porm, a histria  diferente. Segundo a oposio sria, o subrbio da capital Damasco foi alvo, na madrugada da quarta-feira 21, de um ataque qumico coordenado pelas foras do regime do ditador Bashar al-Assad. Se comprovada a denncia, uma interveno militar do Ocidente ser to necessria quanto inevitvel. H um ano, o presidente americano Barack Obama estabeleceu o uso de armas qumicas como uma linha vermelha que mudaria seus clculos em relao ao conflito. Logo aps as notcias do horror, inspetores da Organizao das Naes Unidas foram enviados  Sria para decifrar as circunstncias da tragdia. O papel dos agentes da ONU  ingrato. Para chegar ao local do atentado, a 15 minutos de carro do hotel em que esto hospedados, de acordo com o jornal The New York Times, eles precisam da autorizao do governo, que tem se mostrado pouco disposto a colaborar, e trabalham com um prazo limitado para chegar a uma investigao conclusiva. S neste ano, h ao menos outros cinco relatos de usos de armas qumicas no pas, em que o Exrcito e os rebeldes se acusam mutuamente de serem os autores. Quem, afinal, responder por mais essa barbrie?

ARMADOS - Rebeldes contra o governo Assad: eles tambm tm um longo histrico de violncia

Dezenas de vdeos que circularam pela internet mostram a destruio causada pelas armas qumicas em Damasco. Devido s barreiras que o governo srio impe a jornalistas,  difcil comprovar sua autenticidade. Nem por isso as imagens so menos impressionantes. Em um dos vdeos, homens socorrem pessoas desesperadas, com narizes e bocas cobertos por panos, enquanto outras parecem estar em convulso. Ao lado delas, e em toda parte, corpos inertes. Entre eles, muitas crianas e mulheres. Em outro vdeo, aparecem centenas de cadveres sem qualquer ferimento, um indcio inequvoco de que a morte teria sido provocada por gases letais. Embora o Exrcito e o governo srio neguem a autoria do ataque contra seu prprio povo,  pouco provvel que a ao tenha sido articulada por outro grupo. No porque os rebeles sejam menos sanguinrios. Para Jeffrey White, especialista em Sria do centro de pesquisas Washington Institute, o atentado no meio da noite foi bem executado e falta aos rebeldes capacidade para organizar um ato dessa dimenso. Alm disso, as reas atingidas, majoritariamente muulmanas sunitas, so locais onde o regime luta, sem muito sucesso, para retomar o controle. Assad, que mantm certo apoio entre os cristos,  muulmano alauta, uma minoria dentro da populao do pas. O presidente srio no est nem a para as ameaas dos Estados Unidos e da Europa e pode ter usado o atentado para mostrar seu poder, disse White  ISTO. Esse seria um passo para a escalada da violncia contra os sunitas e estabeleceria um novo nvel de tirania.

TIRANO - Segundo especialistas, o presidente Assad no est preocupado com uma possvel interveno ocidental

O agravamento do cenrio acontece num momento em que Assad parece estar vencendo a guerra civil. Em junho, as tropas leais ao ditador recuperaram a cidade estratgica de Qusayr, na fronteira com o Lbano, e o regime se fortaleceu na medida em que a oposio se dividiu. Os guerrilheiros do Exrcito Livre da Sria, por exemplo, se distanciaram de seus aliados da Al Qaeda depois do assassinato de um comandante. Ao mesmo tempo, China e Rssia, que tm assento permanente no Conselho de Segurana da ONU, mantiveram-se ao lado de Assad em fruns multilaterais e vetaram todas as resolues contra o pas. O apoio, que tambm vem do Ir, foi importante quando, h um ano, muitos analistas davam como certa a queda do presidente. Naquela poca, o ncleo duro de Assad havia sofrido um golpe com o bombardeio  sede da Segurana Nacional, que matou, entre outros membros do governo, o ministro da Defesa e o vice-presidente, cunhado do ditador.

FUGA - Milhares de refugiados srios enfrentam o deserto para escapar do pas

Na semana passada, depois de uma reunio de emergncia do Conselho de Segurana da ONU, o ministro das Relaes Exteriores da Frana, Laurent Fabius, defendeu o uso da fora pela comunidade internacional no conflito. Os russos endossaram os pedidos de investigao do atentado, mas por acreditarem que seja uma provocao premeditada da oposio para chamar a ateno das Naes Unidas. Mais pressionados esto os Estados Unidos. Chegou o momento de uma interveno, mas no deve acontecer to cedo, porque Obama no est interessado nisso, afirma Jeffrey White.  ultrajante a situao da populao sria, que  totalmente incapaz de se proteger de armas qumicas. Na quinta-feira 22, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Jen Psaki, disse que a orientao de Obama  inteligncia  reunir urgentemente informaes sobre o ataque. At l, os srios continuaro a viver sob um Estado que desconhece o valor dos direitos humanos.

